Ecologia e Conservação do Tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla) no Parque Nacional das Emas - GO

Responsáveis: Flávio Rodrigues & Guilherme Miranda (UCB), Rosane Colevatti (UCB), Fernanda Vinci (autônoma)

Parceiros deste projeto:

O tamanduá-bandeira, Myrmecophaga tridactyla, é o maior representante da família Myrmecophagidae, medindo até mais de 2 m de comprimento total e pesando até cerca de 40 kg. Distribui-se nas florestas e savanas, desde Belize e Guatemala até o norte da Argentina, sendo uma espécie relativamente comum em algumas localidades do Cerrado brasileiro, mas sendo extremamente rara ou já tendo sido extinta de outras, constando, por isso, na lista dos mamíferos brasileiros ameaçados de extinção, do IBAMA. Atualmente populações grandes de tamanduás podem ser encontradas apenas em algumas poucas áreas, com destaque para o Parque Nacional da Serra da Canastra, MG e para o Parque Nacional das Emas, GO. A principal causa de declínio das populações de tamanduá-bandeira é a deterioração e redução de hábitats e, em algumas áreas, o fogo. Em agosto de 1994, um incêndio de grandes proporções queimou 97% do Parque Nacional das Emas, inclusive todas as áreas de cerrado aberto. Silveira et al. (1999) estimaram a taxa de mortalidade de grandes mamíferos, em especial tamanduás-bandeira, após o incêndio. A estimativa é que tenham morrido no mínimo 332 indivíduos de tamanduás-bandeira pela ação direta do fogo.

Tamanduás-bandeiras estão entre as principais presas de onças-pintadas no Parque Nacional das Emas, portanto são importantes para a manutenção deste felino na região.

Este projeto tem como objetivo geral comparar a ecologia das populações de tamanduás-bandeira dentro e fora do Parque Nacional das Emas, em diferentes tipos de uso da terra: hábitats naturais, lavouras e pastagens, dando subsídios para o desenvolvimento de estratégias de conservação da espécie. Como objetivos específicos, as seguintes questões serão contempladas:

Qual a área de vida do tamanduá-bandeira em diferentes hábitats do Cerrado (incluindo áreas modificadas pelo homem)? Qual o padrão de atividade diária da espécie? Qual a distribuição do uso (preferência) de hábitats pelas populações de tamanduá-bandeira?

Qual a densidade, tamanho, estrutura das populações de tamanduás-bandeira em diferentes tipos de hábitat (cerrado, campo limpo, campo sujo, campo úmido, pastagens, lavouras, etc)?

Há variações sazonais significativas na área de vida, padrão de atividade e densidade populacional da espécie?

Existe uma estruturação espacial na variabilidade genética dentro da população, relacionada a diferentes áreas do Parque e áreas antrópicas adjacentes?

Qual a distância do fluxo gênico (existe tendência de acasalamento entre indivíduos de áreas de vida adjacentes)?

Quais as principais doenças que estão presentes nas populações de tamanduás amostradas?

O projeto, iniciado em julho de 2000, foi finalizado em 2003.

Resumo dos resultados:

A área de vida média de tamanduás-bandeira no PNE foi de aproximadamente 12 km2. Estes valores são muito superiores aos encontrados por outros pesquisadores no Parque Nacional da Serra da Canastra e também no Pantanal, porém são inferiores aos encontrados para os Llanos venezuelanos. Ainda que maiores que a de outras localidades no Brasil, as áreas ocupadas pelos tamanduás do PN Emas não são muito extensas. Houve uma alta sobreposição de áreas de vida, tanto de machos quanto de fêmeas. Estas duas características da espécie, áreas relativamente pequenas e alta sobreposição, possibilitam que altas densidades sejam alcançadas e o PNE é uma das áreas onde esta densidade é maior (talvez com exceção do PN Serra da Canastra) (F.H.G. Rodrigues & G.H.B. de Miranda, dados não publicados).

Além dos animais monitorados dentro do Parque com telemetria VHF convencional, 10 tamanduás na periferia do Parque foram equipados com um colete contendo um transmissor VHF e um GPS, para mapear o uso de áreas antrópicas. Os resultados mostram que os tamanduás da periferia utilizam áreas de lavoura, mas principalmente para alcançar outras áreas naturais. Portanto, ainda que possam sobreviver numa matriz de áreas alteradas, os tamanduás dependem fortemente das áreas com vegetação nativa e são estas que possibilitam a ocupação da matriz.

Sangue de 30 tamanduás capturados foi coletado para análise de variabilidade genética. O DNA de todas as amostras foi extraído e armazenado. Estas amostras estão sendo analisadas.

Os levantamentos populacionais por meio de transectos terrestres indicam que há cerca de 530 tamanduás habitando o Parque Nacional das Emas. No levantamento aéreo o resultado foi de cerca de 276 tamanduás no PNE.

O projeto teve apoio da Fundação O Boticário de Proteção à Natureza/ MacArthur Foundation, The Wittley Award Foundation/ Rufford Small Grants, Conservation International do Brasil e Centro Nacional de Pesquisa para Conservação dos Predadores Naturais - CENAP/IBAMA.