Biologia Comportamental e Conservação do Lobo-Guará (Chrysocyon brachyurus) no Cerrado de Minas Gerais

destaques
Em 2004 e 2006 o projeto sediou o I e II cursos de Conservação de Carnívoros Silvestres.
Em 2006 recebeu o Prêmio da FIES, Fundação ligada ao Banco Itaú, pelo projeto de Educação Ambiental que desenvolve;
Em 2007 recebeu apoio da Walt Disney Foundation através do Smithsonian Institution.
Setembro de 2007 - Foram iniciadas as sessões de cinema ao ar livre para a comunidade que vive ao redor do Parque Nacional da Serra da Canastra pelo projeto de educação ambiental. Confira a reportagem na MGTV, e veja a reportagem deste mês na Revista Terra da Gente na banca mais próxima.

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O Sub-Projeto "Lobo da Canastra", sob responsabilidade do pesquisador Marcelo Bizerril, está com vagas abertas para recebimento de estagiários.

Responsáveis: Flávio Rodrigues e Rogério de Paula.

Parceiros deste projeto:

Resumo
O lobo-guará (Chrysocyon brachyurus) é o maior canídeo Sul-americano e é considerado como ameaçado de extinção no Brasil ("Vulnerável", MMA 2003). O Parque Nacional da Serra da Canastra, sudeste de Brasil, é considerado uma das áreas com maior abundância desta espécie em sua região de distribuição. A dieta do lobo-guará tem sido amplamente estudada. Sabe-se que lobos-guarás apresentam um hábito alimentar onívoro, onde aproximadamente 50% da dieta é composta por frutas e 50% por animais. Porém outros aspectos de sua biologia permanecem com pouca informação disponível.

A principal ameaça para a conservação do lobo-guará é a destruição e fragmentação de habitats. Embora a espécie apresente uma plasticidade para tolerar certos impactos de baixo nível, a intensa ocupação humana e desenvolvimento pode ser um risco para a manutenção das populações e atividades humanas como agricultura, pecuária e turismo, entre outros, poderiam estar afetando as populações dos lobos por mudanças comportamentais e ecológicas. O contato indireto ou direto com animais domésticos, um assunto mundialmente discutido hoje em dia, representa uma ameaça relacionada a assuntos epidemiológicos.

Normalmente o lobo-guará é um animal solitário, mas ocasionalmente pode ser visto em pares. Os indivíduos de adulto sustentam área de vida de 30 a 115 km2, onde machos e fêmeas podem sobrepor as áreas usando eventualmente. Pouca informação sobre o comportamento territorial está disponível no momento e esta pode ser uma base para determinação de tamanho de área necessário para sustentar uma população.

Outro problema advindo da fragmentação do ambiente é deterioração genética das populações, que pode afetar o sucesso reprodutivo e levar a população à extinção. Por isso, é muito importante avaliar a saúde genética e reprodutiva das populações. Deste modo, o objetivo principal desta pesquisa é adquirir informação relativa à biologia, ecologia, epidemiologia, genética e reprodução de lobos-guarás, tanto em áreas naturais quanto em áreas alteradas, buscando formas, através de educação ambiental, de atenuar as pressões antrópicas a que estes canídeos estão sujeitos.

Pretende-se estabelecer um plano de ação de conservação para a espécie a ser aplicada ao longo da área do Cerrado como um todo, onde o mesmo padrão de ocupação humana e desenvolvimento e impactos concomitantes em cima da vida selvagem podem ser vistos. A metodologia deste projeto abrangerá captura dos animais, acompanhamento por rádio telemetria, acompanhamento visual para descrição de comportamento, coleta e análise de amostras biológicas com finalidade de avaliar a higidez sanitária da população, variabilidade genética, estado e qualidade reprodutiva da população. Os dados de cada área temática serão relacionados, dando um caráter de multidisciplinaridade ao projeto.

 

Equipe

Nome Formação/ Titulação Sub-área no projeto Instituição
Flávio H. G. Rodrigues Biólogo, Doutor Comportamento, ecologia, epidemiologia Pró-Carnívoros/ UnB
Rogério Cunha de Paula Biólogo, Mestre Comportamento, ecologia, epidemiologia Pró-Carnívoros/ CENAP/IBAMA
Ronaldo G. Morato, Veterinário, Doutor Reprodução Pró-Carnívoros/ CENAP/IBAMA
Eduardo Eizirik Biólogo, Doutor Genética Pró-Carnívoros/ Laboratory of Genomic Diversity, National Cancer Institute, EUA.
Adriani Hass Bióloga, Doutora Estimativa de abundância de presas Universidade de Brasília
Isabel Cunha Veterinária, Doutora Reprodução Universidade Estadual do Norte Fluminense
Fernanda Vinci dos Santos Veterinária, Bacharel Epidemiologia Autônoma
Marcelo X. A. Bizerril Biólogo, Doutor Educação Ambiental Centro Universitário de Brasília - UNICEUB
Sandro L. Bonatto Biólogo, Doutor Genética Centro de Biologia Genômica e Molecular, PUCRS
Alexandra M. R. Bezerra Bióloga, Mestre Estimativa de abundância de presas Universidade de Brasília
Cláudia Filoni Veterinária, Mestre Epidemiologia FMVZ USP
Jean Carlos Ramos Silva Veterinário, Doutor Epidemiologia FMVZ USP
Ana Maria Jansen Veterinária, Doutora Epidemiologia Fundação Oswaldo Cruz
Pedro Marcos Linardi Historiador Natural, Doutor Epidemiologia UFMG
Fernanda Cavalcanti Azevedo Bióloga, Bacharel Comportamento, ecologia, epidemiologia, ed. ambiental  
Joares Adenilson May Junior Veterinário, Bacharel Comportamento, ecologia, epidemiologia, ed. ambiental  
Jean Pierre Santos Nível médio Comportamento, ecologia, epidemiologia, ed. ambiental  

Área de Estudo
O estudo será realizado na região sudoeste de Minas Gerais, no Parque Nacional da Serra da Canastra (entre 20 00' - 23 00'S e 46 15' - 47 00' W) e área de influência. O parque detém 2.000 km2 dos quais apenas 715 km2 vinha sendo reconhecido e manejado como uma Unidade de Conservação de proteção integral até 2001.

A área se encontra no domínio do Cerrado e localiza-se em uma região de alto crescimento econômico e desenvolvimento agropecuário. O parque apresenta significantes populações de carnívoros e um dos santuários para a conservação do lobo-guará. Na última década, tanto a área protegida quanto a região circunjacente têm sido extensivamente exploradas pelo turismo desordenado. As riquezas naturais e a vida selvagem do parque são itens utilizados para a atração de visitantes na região.

O Parque foi criado em 1972, período de conflitos econômicos e políticos no Brasil, e devido a pressão dos fazendeiros locais, a área de 715 km2 foi determinada, apesar do decreto de criação do Parque estabelecer 2000 km2 de área a ser protegida. O IBAMA, através da revisão do plano de manejo do Parque em 2002 tem considerado a possibilidade de integrar os restantes 1.300 km2 à área do Parque.

O parque abrange uma variedade de formações de vegetação, apresentando o mesmo padrão de tipos de vegetação do ecossistema de Cerrado, com uma predominância de campo aberto. Formações florestais ao longo dos cursos de água, a floresta de galeria, e florestas semideciduais mesofíticas também ocorrem no parque.

Áreas vizinhas à Serra Canastra abrigam fazendas pequenas (propriedades de terra de 100 hectares ou menos), onde a alteração de hábitat devido a plantios de pastagem é evidente. A atividade econômica primária na região é criação de gado. Atividades agrícolas são principalmente limitadas a plantações de subsistência, excluindo as grandes áreas onde há plantação de café e de milho.

Atividades propostas
1- Estudo do comportamento social do lobo-guará
2- Estudo da dispersão de jovens de lobo-guará
3- Avaliação de exigências de hábitat de lobo-guará através de estudos de integridade ambiental
4- Levantamento epidemiológico dos lobos-guarás e cães domésticos no PNSC e entorno.
5- Campanha de vacinação de cães domésticos
6- Estudos reprodutivos e formação de banco genômico
7- Avaliação da variabilidade genética
8- Estimativa de população e implementação de programa de monitoramento.
9- Implantação de programa de educação ambiental

 

1- Estudo do comportamento social do lobo-guará
O conhecimento sobre o comportamento social de lobos é ainda escasso, mas necessário para melhor planejamento e manejo de áreas que possam conservar populações viáveis desta espécie. Informações sobre tamanho de território (área defendida e exclusiva dentro da área de vida de um indivíduo) e hierarquia social são praticamente inexistentes. A escolha do local da área de vida e o tamanho do território defendido pode ter relação direta com a disponibilidade de recursos alimentares. Esta meta visa o conhecimento mais aprofundado do comportamento social de lobos-guarás, através de monitoramento por telemetria, identificação do DNA das fezes e observação direta de comportamento. Além disso, faremos estudos da disponibilidade de alimento dentro da área de vida de cada indivíduo para relacionar com o comportamento destes.

2- Estudo da dispersão de jovens de lobo-guará
É de vital importância para a conservação da população de lobos-guarás do PNSC a conectividade entre esta e outras áreas naturais onde ocorre, garantindo a troca de indivíduos e de informação genética com outras populações. Para tal, é necessário antes identificar as principais rotas de dispersão, para otimizar esforços e recursos. Esta meta visa identificar estas áreas de dispersão, baseado em monitoramento de indivíduos dispersando, imagens de satélite e análises através do Sistema de Informações Geográficas de hábitats viáveis ao estabelecimento e deslocamento de indivíduos.

3- Avaliação de exigências de hábitat de lobo-guará através de estudos de integridade ambiental
Uma ferramenta que vem sendo utilizada em vários países em planos de ação para a conservação de inúmeras espécies é o sensoriamento remoto através do georreferenciamento de dados adquiridos em campo e análises através do Sistema de Informações Geográficas. Desta forma, objetiva-se a análise espacial da ocupação dos indivíduos monitorados em mapas temáticos e imagens de satélite com a finalidade de se levantar informações mais precisas com relação à dinâmica populacional e atuação de indivíduos na área. O cruzamento das informações obtidas nestas análises, fornecerá respostas mais efetivas.

Ainda uma análise refinada dos habitats e da intervenção humana nas áreas naturais, podem resultar na elaboração de planos de ação para conservação da espécie.

Áreas prioritárias para o levantamento de informações mais precisas para tal estudo foram pré-determinadas na região, visando áreas potenciais para dispersão de fauna, áreas de intensa ocupação humana entre enclaves de vegetação natural (Figura 2). Desta forma foram escolhidas tanto áreas localizadas tanto nos limites da UC onde atividades de manejo já existem, quanto em áreas do parque sob domínio privado, onde atividades antrópicas de impacto prevalecem na paisagem.

4- Levantamento epidemiológico dos lobos-guarás e cães domésticos no PNSC e entorno.
Nos últimos anos, casos de interações entre canídeos silvestres e outras espécies de outros grupos, têm se tornado algo freqüente em todo o mundo, podendo levar a problemas para a saúde de populações silvestres, por causa do contágio por doenças transmitidas por cães. A maioria dos carnívoros silvestres apresenta uma alta sensibilidade a patógenos adquiridos de animais domésticos, e os canídeos compõem um dos grupos mais afetados. O contágio por patógenos pode acontecer não só por meio das interações entre canídeos silvestres e domésticos, mas simplesmente pela utilização da mesma área ou dos mesmos recursos. Estabelecer os efeitos das doenças sobre populações de espécies ameaçadas e as relações destas enfermidades com as populações humanas e animais domésticos associados é parte fundamental para a implementação de planos de manejo realistas e adequados aos parques e reservas naturais de modo a salvaguardar a saúde e bem estar das populações silvestres e evitar a propagação de zoonoses. Esta meta visa identificar as possíveis doenças afetando tanto a população de lobos-guarás quanto a de cães domésticos, através de coleta e análise de amostras de sangue, fezes e urina.

5- Campanha de vacinação de cães domésticos
A boa saúde dos animais domésticos é importante para prevenir a propagação de doenças de animais domésticos para os silvestres e mesmo para os humanos que convivem com eles. Para isto, campanhas de vacinação contra diversas doenças conhecidas de cães serão realizadas.

6- Estudos reprodutivos e formação de banco genômico
Técnicas de manejo em cativeiro, formação de banco de amostras biológicas e desenvolvimento de técnicas de reprodução assistida têm sido consideradas importantes ferramentas para a conservação de espécies ameaçadas de extinção. Os bancos de amostras biológicas podem ser organizados com objetivos de desenvolver uma coleção de tecidos somáticos, linhas celulares, DNA e soro sangüíneo, primariamente para estudos taxonômicos, demográficos e médicos e de desenvolver uma coleção de gametas e embriões que contribuirão na produção de novos indivíduos. Sendo assim, a preservação de amostras biológicas pode ser um seguro contra a extinção das espécies e uma fonte inesgotável de informações que podem subsidiar estratégias de manejo. A transferência de embriões ou gametas é uma alternativa importante para o manejo de populações silvestres. A colheita, avaliação e criopreservação de sêmen em lobo-guará permitirá, de imediato, avaliar a condição reprodutiva da espécie na área estudada.

7- Avaliação da variabilidade genética
Com a crescente fragmentação do Cerrado e a perspectiva de que em pouco tempo restem poucas áreas naturais isoladas entre si, um manejo genético será fundamental para manter populações viáveis nestes locais. Para que isto possa acontecer, é importante que a base para este manejo seja criada desde já. Desta forma, o conhecimento da variação genética dentro e entre populações é fundamental. As análises de diversidade genética e diferenciação entre populações serão baseadas em dois tipos de marcadores moleculares: locos de microssatélites e seqüências do DNA mitocondrial (mtDNA).

8- Estimativa de população e implementação de programa de monitoramento.
Conhecer o tamanho populacional é ponto de partida para diversas atividades de manejo. Da mesma forma, monitorar tendências populacionais é fundamental para identificação de problemas com a população e pode ser importante para a definição de estratégias de manejo. Esta meta tem por objetivo adquirir dados sobre o tamanho populacional de lobos-guarás no PNSC e para implantar um programa de monitoramento em longo prazo.

9- Programa de educação ambiental - O Lobo da Canastra (atualizado em set/2007)
Pesquisador responsável: Dr. Marcelo Bizerril
Em várias partes do mundo a biodiversidade, e particularmente a fauna de carnívoros, é ameaçada por conflitos com as populações humanas locais. De modo semelhante, é comum a relação conflituosa entre unidades de conservação e comunidade local. Com isso, a educação ambiental tem sido considerada importante aliada nos projetos de conservação da natureza, uma vez que é amplamente aceito que o envolvimento comunitário é crucial para o desenvolvimento a contento das atividades conservacionistas. A educação ambiental pode contribuir diretamente para o sucesso das atividades de conservação a serem empreendidas neste projeto, uma vez que elas envolvem, de uma forma ou de outra, a interação com a população local.

As Ações:

- Elaboração de um livro local a partir de uma série de reuniões com diversos segmentos da comunidade local e o seu envolvimento em um trabalho de pesquisa sobre a região, sua história e seus interesses futuros.
-Elaboração e apresentação de vídeos educativos e filmes sobre questões ambientais e outras de interesse da comunidade. Os vídeos são apresentados seguidos de discussão, em escolas, centros comunitários e fazendas da região.

Este sub-projeto está recebendo estagiários.